A descoberta que nunca tive coragem para admitir:

Não acredites em quem apregoa o amor; acredita antes em quem o pratica!

Monday, April 26, 2010

Tu sonhas Grande! ou Sonhas Alto?

Lembro-me de, muitas vezes, ter ficado a olhar a linha do horizonte, enquanto esperava pela minha mãe, na praia.
A apanha do sargaço era, na altura, o modo de vida de muitas mulheres que, como a minha mãe, não tinham uma profissão ou, se a tinham, após o casamento vinham para casa para cuidar do lar e da família. Mas os tempos eram difíceis e esses planos de cuidar da família ficavam no rol das boas intenções, pelo que, uma vez os empregos perdidos, tinham de se agarrar ao que aparecia.
Naquela altura, os japoneses eram bons clientes para o sargaço. Dizia-se que faziam remédios com estas algas. Como nós riamos quando ouvíamos isto: remédios? com o sargaço? Nós só lhe conhecíamos as qualidades de bom adubo para os campos.
Esses tempos, para mim, foram tempos muito, muito felizes! Cresci no mar, fiz amizades no mar, brinquei naquele areal imenso, chorei e ri como todas as crianças choram e riem e sonhei. Como sonhei!
Tentava imaginar o que haveria do outro lado do mar: outros meninos, ... seriam como nós? Também brincariam ao pilha, ou à macaca, à cabra-cega, ... e as mães? Andariam ao sargaço? Como seria a praia lá? Era tão inocente o meu sonho que transpunha para lá o meu mundo, apenas o mundo que conhecia.
A minha imaginação deixava-me muitas vezes longe da algazarra e das correrias dos outros meninos. Sabia que, nem eu nem os meus colegas poderíamos ir lá, ao outro lado. Talvez só os senhores que vinham passar férias para casa dos meus avós - os fidalgos - é que teriam possibilidade, leia-se dinheiro, para poder viajar até lá.
Depois, quando chegava a casa e perguntava à minha avó Maria se ela achava que o avô Francisco podia ir lá no barco dele, ela ria-se e dizia: Tu sonhas grande!

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