Foi hoje, entre as 00:30h e as 01:30h. A hora de fechar e de abrir os olhos.
Vivi a despedida no lago. A despedida do que nunca foi.
Não sei muito bem como cheguei àquele local. A verdade é que me vi lá, sentada, numa sala de espera de uma casa grande, parecia-me uma clínica, com paredes e tectos brancos, onde as funcionárias também se vestiam de branco.
A certa altura uma delas pediu-me para a acompanhar a uma sala, onde tu já me esperavas, à porta, também vestido de branco - umas calças largas e uma túnica.
Os teus olhos sobressaíam naquele invólucro branco. Duas estrelas azuis. Deste-me a mão, entrámos, fechaste a porta e levaste-me até ao fundo da sala, onde havia uma porta enorme, toda em vidro e de onde se podia ver um jardim. Lindíssimo! Um jardim como nunca havia visto em toda a minha vida: as árvores, as flores, os arbustos, as cores, tudo era deslumbrante. Aquela paisagem fascinou-me. E tu percebeste.
Abriste a porta, voltaste a pegar-me na mão e levaste-me até ao jardim. A medida que caminhávamos, o ar quente e doce invadia-me as narinas e deixava-me leve, como se os meus pés não tocassem o chão ao caminhar. Havia um pássaro que nos sobrevoava, enquanto caminhávamos, mas cantava uma melodia triste, como que anunciando algo de trágico. Só isso destoava no meio da toda aquela beleza. Caminhámos um pouco e encontrámos uma escadaria que descia para um lago,de um verde límpido e suave. Descemos e reparámos que o lago era ladeado por uma escarpa rochosa, altíssima, formando um círculo, quase totalmente fechado. Consegui vislumbrar uma fenda vertical na parede de rocha, por onde o vento se esgueirava e a água do mar - que ficava do lado de fora deste círculo granítico - comunicava com as águas verdes do lago.
Havia pedras, umas grandes e outras menores, que formavam uma espécie de passadiço, através do qual se podia chegar ao centro do lago. De mãos dadas, saltitámos até chegarmos a uma rocha maior, onde nos sentámos. Estivemos assim, sentados, em silêncio por alguns instantes. Podíamos ver pequenas tartarugas, peixes coloridos e de tamanhos variados que se abeiravam para ver quem havia chegado ali. Um mero veio ver-me. Acho que nos conhecíamos, já. Seria o Pintas? Não deu para confirmar.
A água, um espelho translúcido, mostrava o fundo, todo coberto de pequenas algas verdes e que, por isso, lhe davam aquela cor. Tu comentaste que o lago era o espelho dos meus olhos.
O sol entrava a pique e tu não resististe. Livraste-te da túnica e mergulhaste. Fiquei à tua espera. Subiste, chegaste perto dos meus pés e disseste: "Vês? trouxeste essa saia e agora não podes vir!" Eu sorri. Ainda respondi: "Mas eu tiro-a!" Já tu tinhas mergulhado outra vez. Ainda te vi deslizar para o fundo e fiquei a ver se subias. "Maldita saia!, pensei.
O sol deixou de brilhar, uma nuvem cinzenta carregou o céu e eu deixei de te ver no fundo.
Estremeci ao som de um assobio, vindo daquela fenda nas rochas, onde um ar forte cresceu e começou a puxar-me, como se quisesse sugar-me para fora do círculo. Arregacei aquela maldita saia e subi a uma rocha mais estreita e à qual me podia agarrar, abraçando-a, e senti que a água estava, também ela, a ser levada, como se tivessem retirado o tampão de uma banheira. Tudo o que havia no lago era levado, em remoinhos. Eu filei os meus olhos no fundo do lago, tentando encontrar-te, gritando o teu nome, já rouca, já sem força, sentindo os gritos redobrarem pelo eco mas abafados pelo uivo enfurecido daquele mar que vinha resgatar a sua água e os seus peixes, antes aprisionados neste círculo rochoso que foi um lago.
Tu não ficaste. Tu não apareceste. Tudo tinha sido levado. Tu também. Eu gritei o teu nome até à exaustão, até não conseguir ouvir a minha própria voz.
Fiquei sem saber se foste levado ou se escolheste ir.
Neste lago me despedi de ti.
Vivi a despedida no lago. A despedida do que nunca foi.
Não sei muito bem como cheguei àquele local. A verdade é que me vi lá, sentada, numa sala de espera de uma casa grande, parecia-me uma clínica, com paredes e tectos brancos, onde as funcionárias também se vestiam de branco.
A certa altura uma delas pediu-me para a acompanhar a uma sala, onde tu já me esperavas, à porta, também vestido de branco - umas calças largas e uma túnica.
Os teus olhos sobressaíam naquele invólucro branco. Duas estrelas azuis. Deste-me a mão, entrámos, fechaste a porta e levaste-me até ao fundo da sala, onde havia uma porta enorme, toda em vidro e de onde se podia ver um jardim. Lindíssimo! Um jardim como nunca havia visto em toda a minha vida: as árvores, as flores, os arbustos, as cores, tudo era deslumbrante. Aquela paisagem fascinou-me. E tu percebeste.
Abriste a porta, voltaste a pegar-me na mão e levaste-me até ao jardim. A medida que caminhávamos, o ar quente e doce invadia-me as narinas e deixava-me leve, como se os meus pés não tocassem o chão ao caminhar. Havia um pássaro que nos sobrevoava, enquanto caminhávamos, mas cantava uma melodia triste, como que anunciando algo de trágico. Só isso destoava no meio da toda aquela beleza. Caminhámos um pouco e encontrámos uma escadaria que descia para um lago,de um verde límpido e suave. Descemos e reparámos que o lago era ladeado por uma escarpa rochosa, altíssima, formando um círculo, quase totalmente fechado. Consegui vislumbrar uma fenda vertical na parede de rocha, por onde o vento se esgueirava e a água do mar - que ficava do lado de fora deste círculo granítico - comunicava com as águas verdes do lago.
Havia pedras, umas grandes e outras menores, que formavam uma espécie de passadiço, através do qual se podia chegar ao centro do lago. De mãos dadas, saltitámos até chegarmos a uma rocha maior, onde nos sentámos. Estivemos assim, sentados, em silêncio por alguns instantes. Podíamos ver pequenas tartarugas, peixes coloridos e de tamanhos variados que se abeiravam para ver quem havia chegado ali. Um mero veio ver-me. Acho que nos conhecíamos, já. Seria o Pintas? Não deu para confirmar.
A água, um espelho translúcido, mostrava o fundo, todo coberto de pequenas algas verdes e que, por isso, lhe davam aquela cor. Tu comentaste que o lago era o espelho dos meus olhos.
O sol entrava a pique e tu não resististe. Livraste-te da túnica e mergulhaste. Fiquei à tua espera. Subiste, chegaste perto dos meus pés e disseste: "Vês? trouxeste essa saia e agora não podes vir!" Eu sorri. Ainda respondi: "Mas eu tiro-a!" Já tu tinhas mergulhado outra vez. Ainda te vi deslizar para o fundo e fiquei a ver se subias. "Maldita saia!, pensei.
O sol deixou de brilhar, uma nuvem cinzenta carregou o céu e eu deixei de te ver no fundo.
Estremeci ao som de um assobio, vindo daquela fenda nas rochas, onde um ar forte cresceu e começou a puxar-me, como se quisesse sugar-me para fora do círculo. Arregacei aquela maldita saia e subi a uma rocha mais estreita e à qual me podia agarrar, abraçando-a, e senti que a água estava, também ela, a ser levada, como se tivessem retirado o tampão de uma banheira. Tudo o que havia no lago era levado, em remoinhos. Eu filei os meus olhos no fundo do lago, tentando encontrar-te, gritando o teu nome, já rouca, já sem força, sentindo os gritos redobrarem pelo eco mas abafados pelo uivo enfurecido daquele mar que vinha resgatar a sua água e os seus peixes, antes aprisionados neste círculo rochoso que foi um lago.
Tu não ficaste. Tu não apareceste. Tudo tinha sido levado. Tu também. Eu gritei o teu nome até à exaustão, até não conseguir ouvir a minha própria voz.
Fiquei sem saber se foste levado ou se escolheste ir.
Neste lago me despedi de ti.
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