A descoberta que nunca tive coragem para admitir:

Não acredites em quem apregoa o amor; acredita antes em quem o pratica!

Sunday, March 16, 2008

Frente a frente

Hoje sentámo-nos, frente a frente, para conversar.
Já não conversávamos assim há muito, muito tempo.
Reparei que ela tem os olhos muito descaídos, muito tristes, todo o rosto é um invólucro de dor, ressentimento e amargura.
Por longos minutos ficámos a olhar uma para a outra. De vez em quando ela baixava os olhos e eu também. Quando ela os reerguia, também eu elevava os meus.
Depois, de repente, ela disse-me:
“- Estou um trapo! Velha. Velha por fora e morta por dentro!”
Eu não respondi.
Então ela continuou:
“- Lembras-te como eu era alegre, desprendida, de sorriso gargalhado, franco, aberto? Ninguém à minha volta estava triste. Eu não deixava. Tinha força para dar e dar. Sim, digo bem: dar e dar. Não era para dar e vender, que estas coisas não se vendem. A força, a alegria, a boa disposição, ... tudo isto se dá. E eu tinha tanto para dar!”
Continuei calada. Deixei-a falar.
De vez em quando ela parava, respirava fundo, como se quisesse arrancar força ou o ar que lhe faltavam amiúde.
Ficou imóvel por momentos, silenciosa, pensativa e continuou:
“- Sou como um cão abandonado.
Olho à minha volta na esperança que alguém me veja, me note, me recolha, abano o rabo, olho com os meus olhos tristes, caídos e baços mas ninguém está interessado num cão como eu: velho, ranhoso, escanzelado, com peladas por todo o lombo, muitos golpes na alma, (mas os cães terão alma?...), um cão que não foi capaz de guardar a própria casa, o próprio dono, um cão que foi deixado só, ao abandono, enxotado, ... um cão que se esqueceu de como se corre atrás de um rato, de como se prepara uma cilada ao gato que insistentemente se exibe no telhado...
Enrosco-me no meu canto, lambo as minhas feridas, como aquilo que me arremessam e fujo dos pontapés.
Tenho mesmo de me despedir.
Do Sol, da Lua, das estrelas, do mar, ... e de ti. Principalmente de ti."
Quando ela terminou, ainda lhe perguntei: “- Porquê?”
Mas, agora, foi ela que não respondeu.
Vi-lhe duas pesadas lágrimas soltarem-se daqueles olhos tristes e baços, frias, salgadas e grandes.
Duas lágrimas que eu experimentei e que me alagaram os próprios olhos.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

Wednesday, December 19, 2007

Cerrada


Tanto tempo!

Na verdade não me tem apetecido cá vir. Não tenho tido muito para dizer, ou antes, não tenho sabido dizer o que me apetece, ... não sei, não sou capaz de dizer o que penso, o que sinto, ... há uma barreira espessa entre o pensamento e a palavra, entre a alma e a verbalização.
Já há muito tempo que estes dois pares não se entendem. Parece que andam a pontos de se divorciarem. Não há meio de chegarem a um acordo, de encontrarem um ponto comum a partir do qual possam recomeçar. Acho que lhes foi arrancada a essência, o motor, ...

Há tanto tempo!

O Natal está à porta e eu sem saber o que dizer!

Saturday, November 10, 2007

Thursday, November 8, 2007

Cais da Ribeira

...
- Olha! Que giro! Fizeram disto um restaurante! Que vistas fantásticas!
...
- Vimos cá jantar um dia?
- Pr'a quê? Mas tu vais a um restaurante para ver as vistas ou para comer?
...
...

Monday, October 29, 2007

Em falta

Estou em falta.
Estou em falta com aqueles que me leram, que me comentaram, que foram, principalmente, presentes e solidários.
Não saem, as palavras!
Estão retidas, indecisas e medrosas.
É aquilo que vos dizia há dias: apetece-me hibernar.
Mas eu volto.
Um dia eu volto.

Tuesday, October 2, 2007

Os 1111

Ontem, dia 1 de Outubro, consultei este local apenas por volta das 23 horas. Fui a 1111ª consulta. A milésima centésima décima primeira????
Lembrei-me dos 1111 e de El-rei D. Sebastião.
Foi um dia estafante, completamente ocupado, não tive tempo de almoçar e, só jantei porque era o dia do meu aniversário: jantei o jantar que eu própria confeccionei.
Por norma costumo recusar-me a cozinhar neste dia. É que não gosto mesmo de cozinhar. Faço umas coisas quando me aplico mas, se pudesse, teria uma cozinheira em vez de uma empregada de limpeza, uma cozinheira em vez de um jardinheiro. Não que não seja eu a tratar das limpezas e a cuidar das minhas flores mas, estas coisas eu gosto de fazer.
Costumo dizer que gostava de gostar. Se gostasse seria feliz a fazê-lo. Quando gostamos do que fazemos, fazemo-lo bem e felizes. É assim com tudo, não é?