A descoberta que nunca tive coragem para admitir:

Não acredites em quem apregoa o amor; acredita antes em quem o pratica!

Thursday, March 27, 2008

"O Mar e Tu" - Puro Fascínio e Perdição: o Amor

Esperar como quem sonha sempre navegar

as velas rubras deste amor,

A Barca Louca perde o Norte.

A Vida a navegar por entre o Sonho e a Mágoa,

Talvez no Mar, eu feita Espuma, encontre o Sal do teu olhar.

Tuesday, March 25, 2008

A sétima onda

O mar é calmo e suave.
Rola, enrola, desliza,
leva e traz consigo
a ânsia de se espraiar.
A areia observa, serena.
Aguarda ser cortejada.
Neste vai e vem,
ambos sabem que se querem,
ambos conhecem seus desejos.
Seis vezes o mar vem.
Seis vezes o mar vai,
para, de seguida, irromper
forte, intenso e louco
e jorrar suas águas,
enquanto a areia o recolhe no seu ventre,
abrindo-se em sulcos de prazer e êxtase,
em sons trepidantes e luz.
Na despedida ela pede:
- "Mais! Mais!"

Friday, March 21, 2008

Aceito o conselho

"... Chorar quem não nos chora, amar quem não nos ama, escrever o que já não há para ser dito, são coisas que já deixaram de encaixar no meu coração.
...
Por agora, o mais importante é encontrar em mim tudo o que deixei partir ou que deixei morrer. Talvez encontrar amor. Talvez encontrar confiança, partilha e amizade em quem as sabe – e quer – dar. Talvez não rejeitá-las quando me forem oferecidas. ..."
Diogo Ribeiro

Sunday, March 16, 2008

Frente a frente

Hoje sentámo-nos, frente a frente, para conversar.
Já não conversávamos assim há muito, muito tempo.
Reparei que ela tem os olhos muito descaídos, muito tristes, todo o rosto é um invólucro de dor, ressentimento e amargura.
Por longos minutos ficámos a olhar uma para a outra. De vez em quando ela baixava os olhos e eu também. Quando ela os reerguia, também eu elevava os meus.
Depois, de repente, ela disse-me:
“- Estou um trapo! Velha. Velha por fora e morta por dentro!”
Eu não respondi.
Então ela continuou:
“- Lembras-te como eu era alegre, desprendida, de sorriso gargalhado, franco, aberto? Ninguém à minha volta estava triste. Eu não deixava. Tinha força para dar e dar. Sim, digo bem: dar e dar. Não era para dar e vender, que estas coisas não se vendem. A força, a alegria, a boa disposição, ... tudo isto se dá. E eu tinha tanto para dar!”
Continuei calada. Deixei-a falar.
De vez em quando ela parava, respirava fundo, como se quisesse arrancar força ou o ar que lhe faltavam amiúde.
Ficou imóvel por momentos, silenciosa, pensativa e continuou:
“- Sou como um cão abandonado.
Olho à minha volta na esperança que alguém me veja, me note, me recolha, abano o rabo, olho com os meus olhos tristes, caídos e baços mas ninguém está interessado num cão como eu: velho, ranhoso, escanzelado, com peladas por todo o lombo, muitos golpes na alma, (mas os cães terão alma?...), um cão que não foi capaz de guardar a própria casa, o próprio dono, um cão que foi deixado só, ao abandono, enxotado, ... um cão que se esqueceu de como se corre atrás de um rato, de como se prepara uma cilada ao gato que insistentemente se exibe no telhado...
Enrosco-me no meu canto, lambo as minhas feridas, como aquilo que me arremessam e fujo dos pontapés.
Tenho mesmo de me despedir.
Do Sol, da Lua, das estrelas, do mar, ... e de ti. Principalmente de ti."
Quando ela terminou, ainda lhe perguntei: “- Porquê?”
Mas, agora, foi ela que não respondeu.
Vi-lhe duas pesadas lágrimas soltarem-se daqueles olhos tristes e baços, frias, salgadas e grandes.
Duas lágrimas que eu experimentei e que me alagaram os próprios olhos.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles