Hoje sentámo-nos, frente a frente, para conversar.
Já não conversávamos assim há muito, muito tempo.
Reparei que ela tem os olhos muito descaídos, muito tristes, todo o rosto é um invólucro de dor, ressentimento e amargura.
Por longos minutos ficámos a olhar uma para a outra. De vez em quando ela baixava os olhos e eu também. Quando ela os reerguia, também eu elevava os meus.
Depois, de repente, ela disse-me:
“- Estou um trapo! Velha. Velha por fora e morta por dentro!”
Eu não respondi.
Então ela continuou:
“- Lembras-te como eu era alegre, desprendida, de sorriso gargalhado, franco, aberto? Ninguém à minha volta estava triste. Eu não deixava. Tinha força para dar e dar. Sim, digo bem: dar e dar. Não era para dar e vender, que estas coisas não se vendem. A força, a alegria, a boa disposição, ... tudo isto se dá. E eu tinha tanto para dar!”
Continuei calada. Deixei-a falar.
De vez em quando ela parava, respirava fundo, como se quisesse arrancar força ou o ar que lhe faltavam amiúde.
Ficou imóvel por momentos, silenciosa, pensativa e continuou:
“- Sou como um cão abandonado.
Olho à minha volta na esperança que alguém me veja, me note, me recolha, abano o rabo, olho com os meus olhos tristes, caídos e baços mas ninguém está interessado num cão como eu: velho, ranhoso, escanzelado, com peladas por todo o lombo, muitos golpes na alma, (mas os cães terão alma?...), um cão que não foi capaz de guardar a própria casa, o próprio dono, um cão que foi deixado só, ao abandono, enxotado, ... um cão que se esqueceu de como se corre atrás de um rato, de como se prepara uma cilada ao gato que insistentemente se exibe no telhado...
Enrosco-me no meu canto, lambo as minhas feridas, como aquilo que me arremessam e fujo dos pontapés.
Tenho mesmo de me despedir.
Do Sol, da Lua, das estrelas, do mar, ... e de ti. Principalmente de ti."
Quando ela terminou, ainda lhe perguntei: “- Porquê?”
Mas, agora, foi ela que não respondeu.
Vi-lhe duas pesadas lágrimas soltarem-se daqueles olhos tristes e baços, frias, salgadas e grandes.
Duas lágrimas que eu experimentei e que me alagaram os próprios olhos.